O artífice como produtor e difusor de conhecimento é uma estratégia milenar, antes de termos instituições de ensino, o aprendizado de uma profissão pelos jovens era dado pela formação dele em oficinas, ou no seio familiar (uma tradição passada de geração a geração). O modo de fazer um processo, era desenvolvido e aperfeiçoado ao longo do tempo.  A produção era lenta e atenta aos mínimos detalhes, o trabalho era artesanal, e o seu aprendizado era dado por meio da labuta e do olhar um mestre fazer e tentar captar a essência da técnica. O mestre dizia ao aprendiz o momento certo para ele aprender a técnica, ou quando ele já teria capacidade para passar a técnica a outros.

Com relação ao aprendizado e a educação as oficinas e os mestres tinham uma função importante formando os jovens para além do trabalho, ensinando-os as normas sociais e culturais. E para o jovem além de aprender uma profissão, ele tinha a função de passar os aprendizados culturais e profissionais a outros jovens quando se tornassem mestres. A preservação da tradição de uma sociedade era pautada por esse ciclo.

O trabalho de um artífice que era muito importante nos séculos anteriores, hoje se torna hobby, ou uma profissão para certos setores específicos profissionais. Os ferreiros, uma das profissões com maior status na história de algumas culturas e sempre bem cultuado em outras, tendo muitas divindades associadas a ele dentre elas Hefesto (Vulcano) na mitologia helenística e latina. Na contemporaneidade o processo antes feito por mestres e aprendizes, é feito por máquinas, que produzem milhares de peças enquanto as oficinas produziriam uma quantidade bastante inferior. Porém ainda hoje temos ferreiros que trabalham produzindo espadas para filmes, para colecionadores e outros. Se perdeu a relação prática da profissão- fazer objetos que seriam utilizados para uma finalidade prática (no sentido do cotidiano), e o ferreiro agora ganha status de um artista plástico, e seu aprendizado se dá tal forma como o aprendizado de um artista.

 

 

Atualmente é raro que qualquer trabalho artesanal no ocidente esteja isento do uso de máquinas para fazer uma parte do trabalho o que de certa forma é mais rápido, menos trabalhoso e mais prático (no sentido temporal e de mão-de-obra). Mas para Sennett essa utilização do maquinário restringe ao artesão não aprender o processo em si, mas para aprender a utilizar apenas a máquina – uma máquina de entalhar madeira, faz o trabalho com mais precisão que um humano, mas saber entalhar um pedaço de madeira é uma atividade que requer treino e prática, não é uma função mecânica que se aprenda sem antes ter feito o mesmo processo milhares de vezes, e aprendido a cada vez novas formas de se fazer o mesmo processo.

Os mestres como únicos detentores do conhecimento e do modo de fazer um processo, isso não é mais possível na atualidade, com o acesso a informação em tutoriais, blogs, e outros, quase se tornou impossível que uma pessoa só detenha os conceitos e conhecimentos – tirando casos específicos, como um sushiman que tem um processo original (ou diferente) criado no seio da sua família, e que se valha de vários processos além de fabricar um sushi – Os discípulos que antes iam atrás do conhecimento em oficinas e prestando serviço como ajudantes aos mestres em troca de aprendizado não é algo tão usual assim;  com a criação de instituições que ensinam a teoria e o aluno deve buscar a prática no dia a dia da profissão escolhida. Gerando outra relação que não aquela do mestre dizer que o discípulo está pronto de maneira intimista, apreciando o seu trabalho e a sua evolução; mas sim outros fatores institucionais e avaliativos dizem/provam que o discípulo moderno/contemporâneo está pronto ou não para exercer tal profissão.

A tecnologia tirou a necessidade de o ser humano aprender a utilizar as ferramentas e de pensar a técnica. Com o passar dos anos foi se desvencilhando o cunho de aprendizado das artes manuais e o do treinamento em oficinas, o que causou uma separação das técnicas manuais e do pensamento. O que para Sennett se explica da seguinte maneira:  “Temeroso de entediar as crianças, avido por apresentar estímulos sempre diferentes, o professor esclarecido pode evitar a rotina, mas desse modo impede que as crianças tenham a experiência de estudar a própria prática e modulá-la de dentro para fora. ” (SENNETT, 2009, p.49).

Com a tecnologia digital é possível que o mestre (professor) ministre seus conhecimentos mesmo estando distante de seus discípulos, por meio de interfaces digitais. Sem intermédio da presença, o que não significa necessariamente sem interação, o aprendizado se adequa e aluno tem que autorregular o seu aprendizado, ele decide quando quer ter as aulas. “O computador conectado à Internet permite ao interagente criação e controle dos processos de informação e comunicação mediante ferramentas e interfaces de gestão. ” (SILVA, 2008, p. 70)

O aprendizado se adapta e absorve a evolução tecnologia, não se pode mensura quais serão os próximos passos dados pela tecnologia, e as formas de inclusão a processos de aprendizados. Porém, não devemos como diz Sennett sermos apenas usuários de máquinas e programas como os CADs, mas sim buscar entender os processos para além do fazer mecânico; resgatarmos algo dos artificies e das produções artesanais, o interesse por fazer as coisas além de apenas fazê-las, devesse tentar fazê-las bem-feitas, e tirar aprendizado desse processo, mesmo sendo mediado por máquinas.  

 

Referências:

SILVA, M. Cibercultura e educação: a comunicação na sala de aula presencial e online. Porto Alegre, 2008. Disponíve em: <http://www.vdl.ufc.br/solar/aula_link/extensao/mec/Ambientacao_EAD_e_Acao_Tutorial/aula_01/imagens/02/Aula01_topico02_texto01_Cibercultura_e_educacao.pdf&gt; Acesso em: 29 jul. 2016.

SENNETT, R. O artifice. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.