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Nas últimas décadas a internet tem sido utilizada para explanações de opiniões, assim como, local de debate sobre questões da sociedade, principalmente com o advento de redes sociais como facebook, twiter, blogs, dando acesso a maioria da população brasileira a informação e aptidão para pessoas mobilizarem as outras com causas que acreditam ser importante na pauta da sociedade. Denomina-se ativismo organizações para fins específicos, que mobilizam um número alto de pessoas que “comprem” essa causa. Por sua vez, a capacidade das pessoas em defender e mobilizar pessoas em prol de um fim por meio principal da internet é chamada de ciberativismo. Segundo Sérgio Amadeu da Silveira ciberativismo “é um conjunto de práticas em defesa de causas políticas, socioambientais, sociotecnológicas e culturais, realizadas nas redes cibernéticas, principalmente na Internet.” Manifestações organizadas na internet ou mobilizações realizadas na própria internet são exemplos de ciberativismo, em que existe a utilização de meios eletrônicos para a mobilização política.

É o uso das mídias sociais que gera o debate, o ciberativismo.  Na revolução em países no norte de África e Oriente Médio tem-se exemplos de países que se utilizam das redes geradas pela internet, principalmente blogs, twiter e facebook, assim como uso de equipamentos como celulares para fotos, vídeos e SMS com a finalidade de manifestar a favor da saída dos regimes autoritários de seus países. A partir dessa experiência o questionamento  se  as redes sociais e celulares são apenas ferramentas, instrumentos, meios ou atores ocasionalmente pode ser  levantado.

De acordo com Sergio Amadeu “um martelo, um computador, leis e normas, um telefone celular, um blog, o Twitter ou o Facebook não são ferramentas, meios, intermediários, por um lado, ou agentes, mediadores, tradutores, atores, por outro.”  Ou seja, os “objetos” referidos podem  desempenhar  uma função ou outra dependendo das associações geradas. Dessa forma o termo “actante”, que significa tudo aquilo que desperta  ação, é melhor empregado, pois evita-se o pensamento que somente humanos geram ações, já que  actante tanto humanos como não humanos assumem determinados papéis a depender das associações formadas em determinada ação.

Respondendo ao questionamento sobre o caso dos países do Oriente Médio e do norte africano, segundo Sérgio Amadeu “podemos dizer que Blogs, Facebook, Twitter, celulares…, agiram como mediadores e foram tradutores de ações de/para outros actantes que ganharam várias dimensões (as ruas, as emissões televisivas, os artigos, etc.). Dessa maneira, pode-se dizer que os agentes não humanos fizeram revolução, tanto como os humanos. Como pensar revoluções sem imagens, armas, propagandas, sem rádio, imprensa, e atualmente as redes sociais? Exemplos brasileiros são  as manifestações contra o impeachment da presidente Dilma, organizadas através do facebook  que mobilizou um número alto de pessoas em todo país. E também manifestações contrárias ao Escola sem Partido em redes sociais e  com um abaixo assassinato.

Hacktivismo  como forma de amplificação da educação

Segundo o pesquisador Stefan Wray, em 1998, surge uma importante expressão do ciberativismo, o “hacktivismo”. Nessa época em quase todo todos os continentes  é provável  achar relatos de hacktividade como o de um jovem hacker britânico, conseguiu acessar por volta de 300 sites e inseriu um texto e imagens antinucleares.

O hacktivismo contém como ação principal a obtenção de maior transparência dos dados públicos, através do compartilhamento desses dados, desse conhecimento. Em geral na ética hacker encontra-se a ideia de que as informações, inclusive o conhecimento, não devem ser propriedade de ninguém e sim compartilhada.Sérgio Amadeu explica que a ideia de compartilhamento do conhecimento “maximiza o desenvolvimento de bens por aproximar-se o máximo possível da exploração das potencialidades da rede e das características inerentes aos bens informacionais.” Os hackers apregoam que o futuro é aberto e que para criação de software de qualidade  a tendência da tecnologia é substituir a remuneração baseada na propriedade pela receita baseada nos serviços. Eles  utilizam dos dados abertos do governo e transformam em aplicativos abertos, por exemplo, para servir como consultas . É um trabalho de cooperação, de compartilhamento de conhecimento e de transformação da educação, ao contrário do que presumem.

Existe uma grande conotação negativa com o termo “hacker”, que é ligado a pessoas que se utilizam de dados como forma de crime. Há uma diferença acentuada em ser um hacker, indivíduo que elabora e modifica softwares e hardwares de computadores, com finalidade de  criar novas funcionalidades ou adaptar as já existentes, do  cracker que deve ser o termo usado para designar quem pratica a quebra (ou cracking) de um sistema de segurança, que é considerado crime.

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Os hackers possuem sua própria ética  que tem como primeiro valor a paixão, desenvolver algo em que se sinta  desafiado e realizado e compartilhar o seu aprendizado para outras pessoas, criando uma grande rede de conhecimento, de educação. Eles também se organizam nos chamados Floss (free libre open source software) , comunidades de hackers que “desenvolvem programas de computador com o código fonte aberto e com licenças de propriedade permissivas que permitem usar, copiar, estudar completamente, melhorar e distribuir as mudanças realizadas no software.” Como resultado o hacktivismo formam indivíduos mais autônomos e colaborativos em relação ao conhecimento e cria uma nova forma de resistência, sem finalidade de destruir a tecnologia, mas de reconfigurar e superar o controle imposto pela tecnologia.

Na educação, é necessário realizar algo inspirado na ética racker, descentralizar a informação, e renovar as práticas pedagógicas, criar, ensinar e incentivar criação e uso de novas plataformas para produção e disseminação do conhecimento. O futuro mostra sinais da importância do uso da internet como forma de ensino, porém ainda muitos educadores persistem em delegar negativamente as novas tecnologias, ao invés de utiliza-las ao seu favor, o que causa um grande desperdício de talentos. Quantos rackers as escolas tradicionais já perderam por falta de oportunidade para esses alunos de se apropriarem dos códigos?

Poucas são as iniciativas para desenvolvimento do hacktivismo em sala de aula. Uma destas, que tem como finalidade aliar a capacidade de criação dos alunos com um modelo de ensino que fomenta esta criatividade é o Hackathon Dados da Educação Básica. É realizado pelo INEP, uma maratona para hackers com intuito de estimular pessoas a utilizar a criatividade e as tecnologias para criação de projetos e serviços sobre dados de interesse público para melhorar a educação no país através da disseminação das informações educacionais. Os participantes  utilizam dados de avaliações oficiais do Inep/Prova Brasil para desenvolver softwares como sites, aplicativos de celular, gráficos interativos. A primeira maratona, por exemplo, teve como vencedor um aplicativo que possibilita uma escola escolher os critérios que deseja ser analisado e relacionar os indicadores com outras instituições, com médias municipais, estaduais e federais.Para desenvolver os programas, as equipes vencedoras receberam,  R$ 5 mil (o primeiro lugar), R$ 3 mil (o segundo lugar) e R$ 2 mil (o terceiro lugar).

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Projeto ganhador do primeiro Hackathon Dados da Educação Básica. Foto: divulgação.

Outra experiência realizada por um grupo de pesquisadores de Passo Fundo, interior do Rio Grande do Sul, foi uma oficina em uma escola municipal da cidade. No período de três tardes, sete estudantes que cursavam a oitava série do ensino fundamental foram incentivadas a usar o Hackasaurus, ferramenta da Mozilla utilizado para editar e criar sites de forma simples e dentro dos valores da “ética hacker” principalmente a do compartilhamento e colaboração.O resultado foi bastante positivo, visto que  alguns estudantes concluíram suas tarefas entendendo todo o processo do que foi feito e, além disso, compartilharam o conhecimento adquirido com os colegas e até produziram conteúdo além do solicitado e outros entenderam e apresentaram os valores da ética hacker. Diate disso, é perceptível a grande capacidade que alunos de educação básica tem em criar e compartilhar quando existe o estimulo para o desenvolvimento dessa competência. Formando rackers nas escolas, o mundo acaba se tornando mais criativo e a educação mais acessível.

Para fazer parte dessas comunidades, qualquer pessoa pode localizar um hackerspace, que são lugares onde pessoas com interesses comum, discutem, estudam e criam tecnologias, novos projetos. Na cidade de Salvador, como exemplo, existe o O Raul Hacker Clube, localizado no Rio Vermelho.

REFERÊNCIAS:

SILVEIRA, Sergio Amadeu. Ciberativismo, cultura hacker e o individualismo colaborativo. Revista da USP, n. 86, 2010. 

http://olhardigital.uol.com.br/fique_seguro/noticia/qual-a-diferenca-entre-hacker-e-cracker/38024

http://www.comunicacao.pro.br/setepontos/7/etihack.htm

Things (and People) Are The Tools Of Revolution!

http://www.techtudo.com.br/artigos/noticia/2013/07/fisl14-palestra-discute-etica-hacker-dentro-da-sala-de-aula.html

http://www3.eca.usp.br/noticias/mario-pireddu-fala-sobre-tica-hacker-na-educa-o

http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,projeto-escola-que-queremos-ganha-maratona-hacker,1021339

 

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