A vigilância afeta um escolar para moldar o seu caráter e moldá-lo ao sistema, podando as arestas de inaptidão levando à obediência das normas e criminalizando perfis desviantes, de modo a formar um caráter homogeneizado normatizado em perfeito estado de captar e adequar-se aos códigos da comunidade de inserção do indivíduo.

Antes de abordar o tema colocarei breves descrições da sociedade disciplinares (panóptico) de Focault e a sociedade de controle de Deleuze para ajudar a trazer à tona e ajudar na elucidação e compreensão do tema da vigilância, educação e tecnologia:

SOCIEDADE DISCIPLINARES DE FOCAULT

“O Panóptico de Bentham é a figura arquitetural dessa composição (…). O dispositivo panóptico organiza unidades espaciais que permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente. Em suma, o princípio da masmorra é invertido; ou antes, de suas três funções — trancar, privar de luz e esconder — só se conserva a primeira e suprimem-se as outras duas. A plena luz e o olhar de um vigia captam melhor que a sombra, que finalmente protegia. A visibilidade é uma armadilha.
Daí o efeito mais importante do Panóptico: induzir no detento um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder. Fazer com que a vigilância seja permanente em seus efeitos, mesmo se é descontínua em sua ação; que a perfeição do poder tenda a tornar inútil a atualidade de seu exercício; que esse aparelho arquitetural seja uma máquina de criar e sustentar uma relação de poder independente daquele que o exerce; enfim, que os detentos se encontrem presos numa situação de poder de que eles mesmos são os portadores.” (FOCAULT, 1987, p.5)

SOCIEDADE DE CONTROLE DE DELEUZE

” “Controle” é o nome que Burroughs propõe para designar o novo monstro, e que Foucault reconhece como nosso futuro próximo. (…). Ao passo que os diferentes modos de controle, os controlatos, são variações inseparáveis, formando um sistema de geometria variável cuja linguagem é numérica (o que não quer dizer necessariamente binária). (…). Nas sociedades de controle, ao contrário, o essencial não é mais uma assinatura e nem um número, mas uma cifra: a cifra é uma senha, (…). A linguagem numérica do controle é feita de cifras, que marcam o acesso à informação, ou a rejeição. Não se está mais diante do par massa-indivíduo. Os indivíduos tornaram-se “dividuais”, divisíveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou “bancos”.” (DELEUZE, 1990, p. 2)

NO ENSINO MÉDIO

Os olhos atentos vigiam os jovens dentro e fora do sistema escolar, dentro do sistema as notas e a competição por uma vaga na universidade (vestibular) pressionam o jovem a seguir uma conduta de uma rotina de autovigilância voltada ao monitoramento das suas próprias atividades – quantas horas deve estudar, dormir e etc. – para um melhor desempenho no vestibular.

Os seus país por sua vez não deixam de monitorá-lo, os professores elucidam a importância do vestibular, e entrar em uma boa universidade para a carreira de uma pessoa. Os sites de notícias avisam que o exame está perto, os cookies sinalizam livros, sites e outros que supostamente ajudariam ao estudante a sair-se bem no vestibular. Os colegas dizem o curso que querem fazer, usam as redes sociais para lembrar aos outros colegas que é importante estudar- postam fotos estudando, postam métodos e cartilhas de estudos, notícias que uma moça no ano passado que estudara 12 horas por dia passou em primeiro lugar na universidade mais concorrida do estado. Esse fato para Deleuze (1990, p. 6) é “No regime das escolas: as formas de controle contínuo, avaliação contínua, e a ação da formação permanente sobre a escola, o abandono correspondente de qualquer pesquisa na Universidade, a introdução da “empresa” em todos os níveis de escolaridade. ”

As “coleiras eletrônicas” Estão no pescoço cativo do estudante, fazendo com que ele esteja sempre controlado e emaranhado em uma rede que tanto distribua, quanto colete informações dele e de suas pretensões. Essa captação de dados é explicada por Bruno(p.35) “(…) deixamos automaticamente, e não raro involuntariamente, rastros de nossa presença e de nossa ação. Tais rastros são monitorados e capturados, nutrindo bancos de dados complexos que tratam tais informações para extrair categorias supraindividuais ou interindividuais segundo parâmetros de afinidade e similaridade entre os elementos, permitindo traçar perfis – de consumo, de interesse, de comportamento, de competências etc. Como se viu nos exemplos apresentados, tais perfis irão atuar ou diferenciar indivíduos ou grupos com base num suposto saber que conteriam.”

Porém o fato de não saber para onde e como está sendo utilizados os dados captados pelo algoritmo, e muitos algoritmos capturarem muito mais informação que o que poderia ser necessário para o seu funcionamento, seria caótico e disfuncional o estudante não utilizar a internet, redes sociais, browsers (sites de busca de informação – para buscar conteúdos acadêmicos e outras funções importantes.

NA UNIVERSIDADE

A crescente falta de segurança é um dos fatores mais latentes para o crescente uso de tecnologia de segurança com o intuito de salvaguardar, monitorar e inibir crimes. As câmeras e outros dispositivos de monitoramento estão presentes em todos âmbitos sociais e entre eles no meio acadêmico (escolas, colégio e universidades) podem variar os motivos para a sua instalação, mas de certo todas estão pautadas em uma crença de que a partir do funcionamento se obterá melhorias em relação a segurança do espaço monitorado.

Porém de fato há precisão em tal conclusão? Para o professor da faculdade de comunicação da UFBA André Lemos (2011, p.6) em uma pesquisa feita no ano de 2010 na qual foram feitos questionários e entrevistas obtiveram se respostas controversas a utilização das câmeras com o intuito de diminuir a criminalidade:
90% da comunidade acadêmica afirma ser necessária a presença de câmeras de vigilância e se sinta à vontade com elas.
83% as câmeras não são suficientes para conferir plena segurança às pessoas ou para reduzir a criminalidade
54% afirmam que a instalação das câmeras não contribuiu efetivamente para isso.
52% afirmam que não irão reduzir a criminalidade no campus.
69% dos entrevistados não se sentem seguros no campus.
65% tem conhecimento da instalação de câmeras no campus
68% sabe que há câmeras na unidade em que foram entrevistadas.
56% afirmam não saber onde as câmeras estão.

Outro exemplo deste monitoramento panóptico é na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) na qual investiram em um totem de vigilância, denominado Kule 360 (medindo 10 metros de altura, o aparelho contará com 11 câmeras de vigilância e um drone na parte de cima funcionando 24 horas, além de um dispositivo pelo qual qualquer pessoa poderá fazer uma denúncia diretamente à Central de Monitoramento da universidade.) Além do totem ainda serão instaladas mais 91 novas câmeras na Cidade Universitária, fonte: G1.com. Após a instalação em fase experimental a própria gravou uma matéria https://www.facebook.com/kule360/videos/191169674637898/ e postou no perfil do Facebook da empresa, no qual uma entrevistada afirma sem muita certeza ter ocorrido diminuição no caso de crimes.

Desta maneira há os que defendam (a maioria dos pesquisados) dentro da instituição (UFBA) o uso de câmeras – mesmo sem que comprovem a sua eficácia em reduzir os incidentes no campus por meio de dados legítimos e colhidos com o mínimo de isenção ideológica. No que toca a privacidade deve-se notar que boa parte das pessoas não está preocupada no assunto – para elas mesmo que não creiam na efetividade, a câmera (como a tecnologia no geral) tem um viés de isenção, é imparcial e eticamente correta, e não há riscos em ter uma câmera, ou quaisquer que seja o aparato tecnológico de vigilância por mais invasivo que possa parecer (ou realmente seja) desde que se tenha em mente que ele venha para combater a violência.

CONCLUSÃO

Apesar de não está comprovado de fato a eficiência destes aparatos tecnológicos de vigilância na inibição ou controle da criminalidade, há muita fé que eles resolvam o problema da segurança pública que deveria ser uma questão que deveria ser trabalhada tendo em base que a questão é mais complexa e delicada do que apenas colocar o dispositivo, ou a polícia vigiando o local.

Todavia a câmera está lá e se torna comum parte da paisagem urbana, o algoritmo não para de captar dados e transformar em perfis. Nada se encaixa mais no perfil da sociedade contemporânea do que uma liberdade vigiada, “datificada” e insegura. Vulnerável a dubiedade de quem controla tais tecnologias e servil a um sistema de monitoramento e vigilância ubíquo, indefectível e justificada.

A distopia de George Orwell no livro 1984 está viva e pulsante na sociedade – devidas as proporções – a vigilância constante no livro é defendida, pois o inimigo do sistema personificado por Emmanuel Goldstein pode estar confabulando e recrutando pessoas para a sua ideologia. Já na sociedade a vigilância constante é legitimada na luta de inimigos do sistema (terrorismo, criminosos e afins).

Em uma sociedade na qual a privacidade está sempre sendo negociada e perdida, e na qual não se pode sair ileso desses mecanismos híbridos entre o panóptico e o controle, ficar ileso para qualquer classe da sociedade é uma missão deveras difícil de ser executada, ainda mais para um estudante em formação que está em um ambiente de controle e repressão institucionalizadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BRUNO, F. Rastrear, classificar, performar. Rio de Janeiro .Disponível em: <https://www.dropbox.com/sh/0wfncfy5igdwcbo/AACog0kNXYitpAqF6oolirm7a/Textos/Tema%206%20%E2%80%93%20Vigil%C3%A2ncia%2C%20monitoramento%20e%20privacidade/Bruno%2C%20F.%20Rastrear%2C%20classificar%2C%20performar.pdf?dl=0 >, Acesso em: 23 set. 2016.

DELEUZE, G. Post-Scriptum sobre as sociedades de controle. In: Deleuze, G.
Conversações: 1972-1990. São Paulo: Ed. 34, 1992. p. 219-226. Disponível em: <http://netart.incuba. 5dora.fapesp.br/portal/midias/controle.pdf>, Acesso em: 23 jul. 2016.

FOCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1987. Do original em francês: Surveiller et punir. Disponível em: <http://escolanomade.org/wp-content/downloads/foucault_vigiar_punir.pdf&gt;, Acesso em: 23 set. 2016.

KULE360. Site: Facebook. Recife, 2016. Disponível em: <https://www.facebook.com/kule360/videos/191169674637898/?hc_ref=NEWSFEED&gt;, Acesso em: 23 set. 2016.

LEMOS, A. et al. Câmeras de vigilância e cultura da insegurança: percepções sobre as câmeras de vigilânciada UFBA. Salvador, 2011. Disponível em:
<https://www.dropbox.com/sh/0wfncfy5igdwcbo/AAAx2_dnsbOR3HZEaskdpZhFa/Textos/Tema%206%20%E2%80%93%20Vigil%C3%A2ncia%2C%20monitoramento%20e%20privacidade/Lemos%20et%20al%20-%20C%C3%A2meras%20de%20vigil%C3%A2ncia%20e%20cultura%20da%20inseguran%C3%A7a.pdf?dl=0&gt;, Acesso em: 23 set. 2016.

ORWELL, G. 1984. Tradução Wilson Velloso. São Paulo: Companhia Editora Nacional. Disponível em: <http://home.ufam.edu.br/edsonpenafort/GEORGE%20ORWELL%20-%201984.pdf&gt; Acesso em: 23 jul. 2016.

UFPE terá novo sistema de câmeras para melhorar segurança no campus. Recife. Site: G1.COM. Disponível em: <http://g1.globo.com/pernambuco/noticia/2016/05/ufpe-tera-novo-sistema-de-cameras-para-melhorar-seguranca-no-campus.html&gt;, Acesso em: 23 set. 2016.

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