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Educação e a comunicação das coisas

Na história da Mitologia grega Dádalo foi um arquiteto/artesão e descobridor das formas, volume e espaço. A pedido do Rei Minos, o artesão construiu o grande labirinto de Creta, que possuía em seu interior uma complexidade arquitetônica. Posteriormente aprisionado em sua própria construção (o rei Minos ordenou a prisão de Dédalo devido o prisioneiro Minotauro ter superado a complexidade do labirinto, saindo vivo dele), Dédalo surpreendeu novamente e com a sua habilidade e genialidade construiu asas artificiais com as penas dos pássaros que voavam sobre o labirinto, coladas com cera de abelhas, realizando assim a sua fuga. Dédalo foi um inventor de contrafações ( estátuas que pareciam vivas, robôs-soldados que patrulharam Creta) e a sua história nos remete ao grande significado que o artífice possui na humanidade. O capitulo Um coletivo de humanos e não-humanos, de Bruno Latour, classifica Dédalo como “O melhor epônimo para a técnica- e o conceito de Daedalion é a melhor ferramenta para penetrarmos a evolução daquilo que venho chamando de coletivo” (P. 202).

             

               Representação do labirinto de Creta, construído pelo artesão Dédalo.

Se fizermos uma rápida pesquisa sobre o termo humano e não humano, encontraremos termos que podem relacionar o humano a um ser que possui falhas, que não é perfeito e que está sempre em busca da evolução dos seus atos e aperfeiçoamento da relação com o próximo. O humano é nada mais que um ser de alma. Podemos então categorizar o não humano aos objetos, certo? Os objetos, a tecnologia, a evolução das máquinas que cada vez mais se aproximam da perfeição e que dominam o mundo seja em qual área for. Prova disso é a chamada Internet das coisas que surge e se aprimora, por exemplo, na educação com o propósito de facilitar e aperfeiçoar a rotina dos estudantes. Contribuição para os alunos com necessidades especiais, aprendizagem móvel e aumento da eficiência são algumas das características dessa nova era na educação, que se rende a nova tendência da internet das coisas.

Segundo André Lemos, a internet das coisas (IoT) é o “conjunto de redes, sensores, atuadores, objetos ligados por sistemas informatizados” que amplifica a comunicação entre pessoas e objetos, assim como põe em evidência a automatização dos objetos (tanto concretos, como digitais) que se comunicam entre si e mediam a comunicação entre eles e os humanos, sem  atores humanos dirigindo o processo. Ou seja, existe a “internet das pessoas”, que seria quando utilizamos um celular, notebook, tablet para produzir, acessar ou compartilhar conteúdos em sites, redes sociais, blogs, etc. Nesse caso, existem objetos não humanos agindo, porém são os atores humanos que fazem o pedido de serviço de acordo com seus interesses do momento.  Já na “internet das coisas” os objetos são o núcleo da mediação. Eles fazem tudo sozinhos se comunicando com outros objetos. Esses objetos ganham de certa forma uma vida, eles falam com outros, tomam decisões por humanos, sugerem, reagem ao contexto e modificam a forma das pessoas lidarem com o seu entorno.

Mesmo com inúmeras facilidades que a autonomia dos objetos pode nos oferecer como, por exemplo, através do sistema de GPS informar que houve um acidente e ele mesmo sugerir uma nova rota para evitar congestionamento, ou fazer com que seu carro se adéqüe a velocidade limite dos locais em que trafega, ele traz questões que podem ser negativas, como o controle, a vigilância,  monitoramento, invasão de privacidade e invisibilidade dos processos.

RASTREAR É A SOLUÇÃO PARA UM SISTEMA DE EDUCAÇÃO SEGURO?

O tratamento de dados em programas qualificados em mensurar e rastrear mudou a perfil de grandes instituições que atualmente se utilizam desses dados para controlar, monitorar a partir de ações individuais das pessoas na internet, e criar produtos próximos a perfis apropriados. Dessa forma a rede digital é cada vez mais acoplada a todos objetos e locais do cotidiano. Esses objetos pro sua vez estão sempre agregados a outros objetos e a outros elementos que compõem a sua solidez como caixas-pretas. Então, muitos objetos que possuem um RFDI, por exemplo, são vistos como somente objetos, não podemos ver a função de rastreamento que ela tem.

Um exemplo é o Centro Municipal Paulo Freire, em Vitória da Conquista, que implementou etiquetas de radiofrequencia nos uniformes dos seu alunos. O projeto tem como objetivo controlaR a entrada e saída de seus alunos. A etiqueta, que tem um código universal, é cadastrada no sistema da instituição com os dados do aluno e contato telefônico de seus pais e responsáveis. Ela é ativada no momento em que o estudante passa pela portaria, através de um leitor instalado na entrada dela. Com essa ativação o sistema envia de forma automática uma mensagem para o número do responsável cadastrado informando o horário que o aluno entrou, ou caso contrário, receberá uma mensagem informando que o aluno não compareceu. Então, temos aqui o escudo do uniforme como uma caixa-preta, que é quando a visibilidade da sua função fica ao fundo, no caso, a atribuição de monitoramento do movimento. Ele não é apenas um objeto usado para identificá-lo como aluno da instituição permitindo entrada e saída, mas um mecanismo de super controle. O aluno só perceberá essa nova função do objeto depois, com as sanções da escola ou dos pais por falta nas aulas.O uniforme torna-se um objeto infocomucicanional, pois atua na relação entre humanos (pais, alunos e professores) e não humanos (escola, operadora de cel, a RFID, leitor).

uniforme_prefeituraUniforme com chip em seu escudo para monitorar a entrada e saída dos alunos.

Mas nesse caso entra justamente em questão o uso da internet das coisas como forma de monitoramento. É bastante problemático que um sistema automatizado substitua a conversa entre alunos, pais e professores. Não é educativo e pode ter efeito contrário. Alunos podem simplesmente burlar esse mecanismo causando atritos entre as partes envolvidas, ou até mesmo haver casos de erro no sistema e causar confusões desnecessárias. Além de não ser saudável esse alto controle com as crianças e público juvenil.

Outra forma de constante vigilância que vem sendo adotada ultimamente é o uso de câmeras de vigilância dentro das próprias salas de aulas, indo além do controle direcionado aos alunos, mas um controle direto dos pais e direção das escolas para com os professores. Uma escola particular em Salvador, por exemplo,  além de colocar as câmeras dentro das  salas, ela transmite ao vivo para os pais, que tem um login de acesso, o que está acontecendo na aula. É uma questão bem complexa, pois vai de contra a liberdade e dinâmica das aulas. Seria a função da escola então colocar a responsabilidade da interação entre ela, pais e alunos em um sistema? Não seria sua função conversar com os alunos e pais e resolver problemas relacionadas ao cotidiano escolar?

cameras_580 Escolas adotam o sistema de vigilância através de câmeras em salas de aulas.

Mesmo que a preocupação seja maior com relação a segurança da criança, esta forma de vigilância vai de contra a liberdade individual e encerra qualquer diálogo entre deveres e direitos e obriga o aluno a ter uma disciplina que é vigiada eletronicamente e não por que ele entende (e lhe é ensinado de forma didática) que é necessário.

ASPECTOS POSITIVOS DA IoT NA EDUCAÇÃO

Dentre as o leque de possibilidades que a IoT abre a aula invertida é uma das possibilidades mais  comuns e de fácil aplicação. Porém os sensores abrem inúmeras possibilidades desde controle de presença do alunado, ou problemas de saúdes e desempenho dos alunos, sem ser necessário uma avaliação humana a priori, os dados já seriam processados e dariam ao profissional responsável por analisar ligações e correlações já estabelecidas entre os códigos – ex: se o aluno A está com mau desempenho em um tal período escolar ou matéria não é preciso que uma pessoa detecte e se ponha a traça relações e hipóteses cruzando dados, apenas deixa-se que o algoritmo capte os dados e faça as relações automaticamente.

Outra proposta é explorar a IoT como ferramenta educacional, explorando as possibilidades inerentes dos sensores e dispositivos, fazendo com que o estudante conheça as vantagens da IoT como a Oi Kabum Recife demonstra no vídeo abaixo:

O desenvolvimento de dispositivos utilizando a IoT por estudantes faz com que o estudante possa desenvolver e explorar uma tecnologia que ainda é recente e a prognósticos que passará a fazer cada vez mais parte do dia-a-dia das pessoas com as Smartcity e os embarcados que já estão dentro do contexto sócio-tecnológico do século XXI

REFERÊNCIAS:
Latour, B. Esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos , cap. 6- Um coletivo de humanos e não-humanos, p. 201-247, Bauru, SP, 2001
Imagem disponível em: https://www.google.com.br/search?q=labirinto+de+creta&biw=1024&bih=613&source=lnms&tbm=isch&sa=X&sqi=2&ved=0ahUKEwj3o4Sg99_PAhXMh5AKHYdtAUgQ_AUIBigB#imgrc=320830K2E3yzeM%3A . Acesso em: 13/10/16.

Hacktivismo e educação

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Nas últimas décadas a internet tem sido utilizada para explanações de opiniões, assim como, local de debate sobre questões da sociedade, principalmente com o advento de redes sociais como facebook, twiter, blogs, dando acesso a maioria da população brasileira a informação e aptidão para pessoas mobilizarem as outras com causas que acreditam ser importante na pauta da sociedade. Denomina-se ativismo organizações para fins específicos, que mobilizam um número alto de pessoas que “comprem” essa causa. Por sua vez, a capacidade das pessoas em defender e mobilizar pessoas em prol de um fim por meio principal da internet é chamada de ciberativismo. Segundo Sérgio Amadeu da Silveira ciberativismo “é um conjunto de práticas em defesa de causas políticas, socioambientais, sociotecnológicas e culturais, realizadas nas redes cibernéticas, principalmente na Internet.” Manifestações organizadas na internet ou mobilizações realizadas na própria internet são exemplos de ciberativismo, em que existe a utilização de meios eletrônicos para a mobilização política.

É o uso das mídias sociais que gera o debate, o ciberativismo.  Na revolução em países no norte de África e Oriente Médio tem-se exemplos de países que se utilizam das redes geradas pela internet, principalmente blogs, twiter e facebook, assim como uso de equipamentos como celulares para fotos, vídeos e SMS com a finalidade de manifestar a favor da saída dos regimes autoritários de seus países. A partir dessa experiência o questionamento  se  as redes sociais e celulares são apenas ferramentas, instrumentos, meios ou atores ocasionalmente pode ser  levantado.

De acordo com Sergio Amadeu “um martelo, um computador, leis e normas, um telefone celular, um blog, o Twitter ou o Facebook não são ferramentas, meios, intermediários, por um lado, ou agentes, mediadores, tradutores, atores, por outro.”  Ou seja, os “objetos” referidos podem  desempenhar  uma função ou outra dependendo das associações geradas. Dessa forma o termo “actante”, que significa tudo aquilo que desperta  ação, é melhor empregado, pois evita-se o pensamento que somente humanos geram ações, já que  actante tanto humanos como não humanos assumem determinados papéis a depender das associações formadas em determinada ação.

Respondendo ao questionamento sobre o caso dos países do Oriente Médio e do norte africano, segundo Sérgio Amadeu “podemos dizer que Blogs, Facebook, Twitter, celulares…, agiram como mediadores e foram tradutores de ações de/para outros actantes que ganharam várias dimensões (as ruas, as emissões televisivas, os artigos, etc.). Dessa maneira, pode-se dizer que os agentes não humanos fizeram revolução, tanto como os humanos. Como pensar revoluções sem imagens, armas, propagandas, sem rádio, imprensa, e atualmente as redes sociais? Exemplos brasileiros são  as manifestações contra o impeachment da presidente Dilma, organizadas através do facebook  que mobilizou um número alto de pessoas em todo país. E também manifestações contrárias ao Escola sem Partido em redes sociais e  com um abaixo assassinato.

Hacktivismo  como forma de amplificação da educação

Segundo o pesquisador Stefan Wray, em 1998, surge uma importante expressão do ciberativismo, o “hacktivismo”. Nessa época em quase todo todos os continentes  é provável  achar relatos de hacktividade como o de um jovem hacker britânico, conseguiu acessar por volta de 300 sites e inseriu um texto e imagens antinucleares.

O hacktivismo contém como ação principal a obtenção de maior transparência dos dados públicos, através do compartilhamento desses dados, desse conhecimento. Em geral na ética hacker encontra-se a ideia de que as informações, inclusive o conhecimento, não devem ser propriedade de ninguém e sim compartilhada.Sérgio Amadeu explica que a ideia de compartilhamento do conhecimento “maximiza o desenvolvimento de bens por aproximar-se o máximo possível da exploração das potencialidades da rede e das características inerentes aos bens informacionais.” Os hackers apregoam que o futuro é aberto e que para criação de software de qualidade  a tendência da tecnologia é substituir a remuneração baseada na propriedade pela receita baseada nos serviços. Eles  utilizam dos dados abertos do governo e transformam em aplicativos abertos, por exemplo, para servir como consultas . É um trabalho de cooperação, de compartilhamento de conhecimento e de transformação da educação, ao contrário do que presumem.

Existe uma grande conotação negativa com o termo “hacker”, que é ligado a pessoas que se utilizam de dados como forma de crime. Há uma diferença acentuada em ser um hacker, indivíduo que elabora e modifica softwares e hardwares de computadores, com finalidade de  criar novas funcionalidades ou adaptar as já existentes, do  cracker que deve ser o termo usado para designar quem pratica a quebra (ou cracking) de um sistema de segurança, que é considerado crime.

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Os hackers possuem sua própria ética  que tem como primeiro valor a paixão, desenvolver algo em que se sinta  desafiado e realizado e compartilhar o seu aprendizado para outras pessoas, criando uma grande rede de conhecimento, de educação. Eles também se organizam nos chamados Floss (free libre open source software) , comunidades de hackers que “desenvolvem programas de computador com o código fonte aberto e com licenças de propriedade permissivas que permitem usar, copiar, estudar completamente, melhorar e distribuir as mudanças realizadas no software.” Como resultado o hacktivismo formam indivíduos mais autônomos e colaborativos em relação ao conhecimento e cria uma nova forma de resistência, sem finalidade de destruir a tecnologia, mas de reconfigurar e superar o controle imposto pela tecnologia.

Na educação, é necessário realizar algo inspirado na ética racker, descentralizar a informação, e renovar as práticas pedagógicas, criar, ensinar e incentivar criação e uso de novas plataformas para produção e disseminação do conhecimento. O futuro mostra sinais da importância do uso da internet como forma de ensino, porém ainda muitos educadores persistem em delegar negativamente as novas tecnologias, ao invés de utiliza-las ao seu favor, o que causa um grande desperdício de talentos. Quantos rackers as escolas tradicionais já perderam por falta de oportunidade para esses alunos de se apropriarem dos códigos?

Poucas são as iniciativas para desenvolvimento do hacktivismo em sala de aula. Uma destas, que tem como finalidade aliar a capacidade de criação dos alunos com um modelo de ensino que fomenta esta criatividade é o Hackathon Dados da Educação Básica. É realizado pelo INEP, uma maratona para hackers com intuito de estimular pessoas a utilizar a criatividade e as tecnologias para criação de projetos e serviços sobre dados de interesse público para melhorar a educação no país através da disseminação das informações educacionais. Os participantes  utilizam dados de avaliações oficiais do Inep/Prova Brasil para desenvolver softwares como sites, aplicativos de celular, gráficos interativos. A primeira maratona, por exemplo, teve como vencedor um aplicativo que possibilita uma escola escolher os critérios que deseja ser analisado e relacionar os indicadores com outras instituições, com médias municipais, estaduais e federais.Para desenvolver os programas, as equipes vencedoras receberam,  R$ 5 mil (o primeiro lugar), R$ 3 mil (o segundo lugar) e R$ 2 mil (o terceiro lugar).

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Projeto ganhador do primeiro Hackathon Dados da Educação Básica. Foto: divulgação.

Outra experiência realizada por um grupo de pesquisadores de Passo Fundo, interior do Rio Grande do Sul, foi uma oficina em uma escola municipal da cidade. No período de três tardes, sete estudantes que cursavam a oitava série do ensino fundamental foram incentivadas a usar o Hackasaurus, ferramenta da Mozilla utilizado para editar e criar sites de forma simples e dentro dos valores da “ética hacker” principalmente a do compartilhamento e colaboração.O resultado foi bastante positivo, visto que  alguns estudantes concluíram suas tarefas entendendo todo o processo do que foi feito e, além disso, compartilharam o conhecimento adquirido com os colegas e até produziram conteúdo além do solicitado e outros entenderam e apresentaram os valores da ética hacker. Diate disso, é perceptível a grande capacidade que alunos de educação básica tem em criar e compartilhar quando existe o estimulo para o desenvolvimento dessa competência. Formando rackers nas escolas, o mundo acaba se tornando mais criativo e a educação mais acessível.

Para fazer parte dessas comunidades, qualquer pessoa pode localizar um hackerspace, que são lugares onde pessoas com interesses comum, discutem, estudam e criam tecnologias, novos projetos. Na cidade de Salvador, como exemplo, existe o O Raul Hacker Clube, localizado no Rio Vermelho.

REFERÊNCIAS:

SILVEIRA, Sergio Amadeu. Ciberativismo, cultura hacker e o individualismo colaborativo. Revista da USP, n. 86, 2010. 

http://olhardigital.uol.com.br/fique_seguro/noticia/qual-a-diferenca-entre-hacker-e-cracker/38024

http://www.comunicacao.pro.br/setepontos/7/etihack.htm

Things (and People) Are The Tools Of Revolution!

http://www.techtudo.com.br/artigos/noticia/2013/07/fisl14-palestra-discute-etica-hacker-dentro-da-sala-de-aula.html

http://www3.eca.usp.br/noticias/mario-pireddu-fala-sobre-tica-hacker-na-educa-o

http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,projeto-escola-que-queremos-ganha-maratona-hacker,1021339

 

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